quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Nota do DCE da UFSM em relação a Tragédia na Boate Kiss e seus desdobramentos



Nesta última semana passamos por uma tragédia que com certeza ficará marcada na história de nossa cidade que gerou muitas perdas e sentimento de dor. Nos primeiros momentos nos dedicamos ao auxílio possível aos familiares e amigos das vítimas e também às dores que carregamos.  Passados três dias, pelo conjunto das circunstâncias impostas e os últimos acontecimentos e pelas demandas que teremos que enfrentar, a gestão Vozes Em Movimento vem a público manifestar opinião sobre algumas questões:

1. Acreditamos que os assuntos de maior prioridade são os que envolvem os estudantes e familiares. É necessária uma ampla rede do sistema público em geral e das universidades para amparo e acompanhamento psicossocial. É ainda necessário que as universidades, em especial a UFSM, flexibilizem pontos como avaliações e presença assim que as aulas sejam retomadas. É importante também que todas as famílias tenham auxílio ao que precisarem. Também esperamos o máximo de dedicação às questões que dizem respeito à superação destes danos irreparáveis. Registramos o empenho que temos visto de todos os segmentos da universidade e de sua gestão em superar isso. Reiteramos a todos e todas que inalaram fumaça no dia da boate que procurem atendimento e observação, pois podem existir consequências não imediatas, porém graves.

2. Exigimos que justiça seja feita. A comunidade clama para que os responsáveis por essa atrocidade sejam responsabilizados. Acreditamos ainda que é importante que o inquérito defina essas questões porque infelizmente a grande mídia de nosso país procura substituir os órgãos judiciais, e já demonstra querer blindar alguns possíveis responsáveis. Essa investigação deve ser a mais profunda possível e irrestritamente identificar todos os responsáveis. As famílias e a comunidade não merecem que este seja mais um capítulo de uma cultura de impunidade presente no Brasil que protege os poderosos e geralmente joga as responsabilidades aos trabalhadores e trabalhadoras que executam suas ordens. Reivindicamos ainda que a UFSM, por ser uma das instituições mais afetadas, disponha um de seus técnicos do corpo jurídico para acompanhar integralmente as investigações.

3. Acreditamos que o acontecido se relaciona com a necessidade que nossa cidade, com alto contingente juvenil, tem de oferecer espaços públicos de cultura e lazer. Infelizmente, não é de hoje o domínio do setor comercial sobre os bens culturais e os espaços de lazer no município. Além disso, nos últimos anos diversos espaços públicos deste caráter foram fechados ou interditados e condenados, cita-se como exemplos: o Centro de Atividades Múltiplas (Bombril),  a concha acústica do Itaimbé e a praça do “Brama”. Vale registrar que nesses e em casos semelhantes não existiu esforço do setor público para viabilizar a utilização destes espaços, mas, sim, apenas decretos de fechamento. O direito ao lazer e à diversão tem ficado a mercê do mercado e sua desordem natural, ocasionada pela lógica da lucratividade. Temos que a partir de agora refletir sobre o que queremos para nossa cidade e para a juventude que merece espaços de lazer seguros, de qualidade e públicos. Diante disso, nós, do DCE-UFSM, sugerimos que seja construído um memorial em homenagem aos nossos colegas na universidade e que este seja uma concha acústica para representar aqueles que se foram com o direito de outros estudantes terem acesso de forma gratuita, num lugar aberto e que possibilite  cultura e integração.

4. Repudiamos o argumento de defesa que o prefeito de nossa cidade tem utilizado afirmando estar cumprindo seu papel de fiscalizador, tendo em vista que há três semanas havia fechado a boate do DCE. Acreditamos que todas as boates devam ser fiscalizadas. Contudo, salientamos que a boate do DCE, que é um espaço público de lazer, sofreu fiscalização rigorosa e está em reformas por problemas de outras ordens que não segurança. Talvez esse espaço seja aquele com mais saídas de emergência da cidade e com menor risco de incidentes do tipo, por ter somente no salão principal 4 saídas e seu isolamento é feito com tijolos e não espuma. Temos, sim, que obedecer as leis e estamos em conjunto com a UFSM  promovendo todos os ajustes necessários. Entretanto,  nossos problemas não são nem perto semelhantes aos da Kiss ou a de outros estabelecimentos comerciais da cidade, que não tiveram até então o mesmo rigor de fiscalização, que nos parece seletiva com pesos diferentes aos espaços  públicos e aos privados.

  5. Registramos nosso descontentamento com o tratamento sensacionalista que a grande mídia tem dado a essa tragédia. Tem-se usado a dor de inúmeras famílias e milhares de amigos e colegas como uma potente fábrica de lucros no mercado da informação. Sabemos que o papel dos meios de comunicação é informar, mas tivemos nos últimos dias a triste oportunidade de ver por parte de algumas emissoras absurdos desrespeitosos com a dor de familiares e amigos na busca desenfreada da maior pontuação de audiência.

6. Muitos de nossos colegas e amigos tiveram óbito porque não tiveram acesso ao tratamento necessário nos hospitais, não por falta de profissionais e voluntários, mas por falta de estrutura de equipamentos e medicamentos. Santa Maria é responsável pelos atendimentos de média e alta complexidade na região. É importante que uma das lições desse processo seja o atendimento de saúde pública como prioridade do poder público. Não foi esta a primeira vez que perdemos entes queridos por não ter acesso a saúde pública de qualidade. Os governos têm essa responsabilidade.

Por último, pedimos que todos em nossa universidade e cidade se unam para que possamos auxiliar os que sentem mais dor. Os danos são irreparáveis, mas precisamos superar nossas dores aos poucos, honrando os que se foram, levando a frente os sonhos e projetos compartilhados. Além disso, é preciso lutar para que a memória trágica que temos se transforme em garantias de que situações como essa nunca mais se repitam.

Há braços,
Gestão Vozes Em Movimento, DCE da UFSM - Em LUTO
Uma parcela de milhares que ainda não entendem ou aceitam a dor que sentem!